Os grafites e os tags pontilham o universo visual das nossas grandes cidades.
Forma de arte complexa e elaborada, ou simples assinatura de um artista de rua ou de um grupo ao qual
pertence, eles transmitem uma mensagem política, uma reivindicação, uma revolta, um facto social; refletem
a nossa sociedade em toda a sua diversidade.
O grafite é uma prática observável desde a Antiguidade, ligada a inscrições populares cursivas.
Mas, nos anos 1970 nos Estados Unidos, e depois nos anos 1980 na Europa, a prática do grafite ganha uma
outra dimensão.
Insere-se no quadro urbano ocidental.
Os grafiteiros integram uma técnica particular, a lata de spray, que lhes permite cobrir grandes
superfícies, dando assim origem a verdadeiros murais.
Assinaturas indecifráveis ou letras gigantes, palavras policromáticas ou personagens fictícios, o grafite
renasce hoje sob formas variadas.
A lata de spray tornou-se a arma absoluta da reivindicação silenciosa ou da expressão artística. Quer
assuma a forma de um tag (assinatura mais ou menos complexa) ou de um graf (mural que cobre vários metros
quadrados), esta atividade constitui um desafio em muitos aspetos.
Com efeito, ela interpela simultaneamente o transeunte no seu anonimato, os poderes públicos na sua
autoridade, e o artista na sua competência. (Encyclopaedia Universalis)
Forma de expressão ora relegada ao estatuto de rabiscos insignificantes, ora elevada ao de obra de
arte plena, o fenómeno é complexo, múltiplo, simultaneamente novo e já conhecido.
O grafite situa-se na fronteira entre várias disciplinas. A prática do graf integra, de facto, elementos
da caligrafia. O tag é um trabalho sobre um conjunto de letras.
É uma pesquisa perpétua de linhas e curvas harmoniosas, traçadas muitas vezes num movimento rápido e
preciso.
É também um trabalho sobre a língua. A especificidade do graf e do tag é exibir palavras.
Trata-se de brincar com a língua, muitas vezes codificá-la e desviá-la. Tal como os rappers, os
grafiteiros inventam uma linguagem própria.
Por fim, é um trabalho que pode ser associado à pintura: o graf é um mural elaborado, cobrindo vários
metros quadrados, feito com a ajuda de uma técnica particular, a lata de spray.
O grafite se inscreve em um contexto particular: o da cidade, e dentro da cidade, o da rua.
A rua é o espaço comum do interesse geral, em oposição ao espaço privado dos interesses particulares.
É, portanto, idealmente, o espaço inviolável da coletividade, lugar onde a diferença se expressa no
respeito mútuo. A lei protege esse espaço por meio do direito.
O grafite constitui então uma violação desse princípio de espaço comum: trata-se de uma forma de
privatização do espaço público, através da expressão de um nome (o tag) ou da imposição de um mural (o
graffiti).
Por trás do grafite está uma pessoa singular, que se expõe no espaço público através de sua assinatura.
O grafite é uma forma particular de ocupação do espaço público. Ele se encontra no cruzamento entre cidade
e política. O grafite está ali para nos lembrar que a cidade é formada por um território, uma comunidade,
trocas, mas que também se funda em um projeto simbólico e estético.
Ao permitir ao passante “ler” uma cidade, o grafite participa da criação de sua lenda, de sua identidade e
do imaginário coletivo de sua comunidade.
O grafite testemunha ainda uma cultura própria cujas raízes se encontram no Hip Hop americano. A força da
imagem é dominante nesse universo.
Com o grafite, a palavra se torna mural: ganha uma dimensão verdadeiramente espetacular, veste-se de cores
vivas, torna-se complexa em sua forma caligráfica.
Assim, a palavra é dotada de uma dimensão pictórica singular e surpreendente.
Essa cultura da imagem, hoje dominante nas cidades, é a fonte essencial do trabalho dos grafiteiros. Suas
qualidades técnicas e artísticas revelam sua criatividade.
Essa arte viva, de mil faces, beneficiou-se da formidável locomotiva que foi o hip-hop para invadir nossos
muros, para vesti-los ou desconstruí-los, em harmonia ou dissonância com a estratificação histórica dos
espaços públicos.
O caráter efêmero dessa dança de cores, formas e aerossóis, associado ao caráter ilícito de sua criação,
torna complexa sua inscrição na memória das cidades.
Meu trabalho busca aqui imortalizar essa arte urbana efêmera, transformar sua escala temporal para
inscrevê-la em nossa memória coletiva e no longo tempo da sedimentação urbana.













