— O tempo dele é longo. Ele faz sinais como o marco tangível da percolação das perspectivas. Uma espécie
de limiar espesso...
— Mas do que você está falando?
— De um espaço intermediário, a ser lido como se estivesse decifrando um mapa.
— Eu adoro mapas.
— Eu também. Mas aqui, um desejo de exaustividade se esgotaria rapidamente.
— É como um interlúdio que nunca para?
— Sim, um espaço transitório que não se pode capturar completamente.
— Aceitar não entender tudo?
— Ter consciência de que as combinações são inúmeras.
— Será que devemos escolher algumas? Ou apenas nos deixar flutuar indefinidamente nesse espaço sem
fim?
— A fotografia captura uma versão possível. Provavelmente é preciso ter derivado por muito tempo para
alcançar o que está certo em certos lugares. Às vezes conseguimos.
— Enquadrar, extrair, retirar quando já se respirou o suficiente o banho de potencialidades. Como se
precisássemos apreender, experimentar o gênio do lugar antes de roubar um fio de tempo dele.
— Sim, e depois vem o prazer, o de oferecer esse fragmento temporal aos olhos daqueles que não estavam
lá.
— A gente pensa na recepção quando fotografa? Esse é o objetivo?
— Acredito que a imagem é autônoma, ela não pertence ao seu autor. Ela segue seu caminho, com ou sem
recepção. O público não condiciona o ato fotográfico. O que o condiciona seria, antes, a relação terna que
se cria com o tempo e o espaço do registro.
— Captar com ternura, sentir a duração?
— Sim, há ternura porque a apreensão do tempo é plenamente sentida.
— Estar no tempo, isso pode ser o ato fotográfico?
— Sim, estar em…
— Tenho a impressão de que, nessa ternura, os outros também nos habitam. Não estamos realmente sozinhos
quando criamos, quando pressionamos o disparador.
— Uma espécie de dissolução do eu e uma energia quase coletiva.
— Um sentimento de comunhão, distante de um pico agudo de subjetividade ou do destaque da minha
singularidade.
— Fotografar seria criar um diálogo que estabelece um vínculo entre duas entidades que pertencem ao mesmo
espaço-tempo…
Trecho de um diálogo livremente inspirado em vários meses de trocas epistolares entre Cloé Carbonare e
Luc Adolphe, reproduzido integralmente no livro "Patine".















