Esta série fotográfica quer ser um desafio a certa tradição ocidental que busca a apologia do claro, do
preciso, do distinto e do estável.
É necessário reconhecer que a clareza se conquista sobre a obscuridade, a distinção sobre o confuso, a
estabilidade sobre o que é móvel. Nesse sentido, a neblina nos ensina a beleza do indistinto, a sabedoria
da incerteza, e nos convida a acolher o borrão como uma oportunidade de ver de outro modo.
Estas imagens ilustram minha fascinação estética e metafísica pela beleza desta substância ambígua que
oscila entre a continuidade e a interrupção, entre a metamorfose e o desaparecimento, entre o real e a
ilusão, entre a indistinção e o etéreo, entre o reconhecimento e o sonho.
Sob a névoa, tudo se torna frágil e efêmero. Os sons são suavizados. O olhar se estica, para se colocar
melhor em sintonia com um mundo sensível, vibrando com múltiplas verdades. A nuvem cria um silêncio
visível que contribui para a estranheza de um novo mundo acolhedor, intimista e confidencial. « Neblinas,
[...] construam um grande teto silencioso! » nos diz Mallarmé em Azur.
A neblina não se limita a velar a paisagem existente, ela cria uma nova. Essa metamorfose opera em vários
níveis, transformando nossa percepção do espaço, da luz, do tempo e da matéria.
A neblina é vestimenta, ela vela e revela a terra. Ela veste os vales, desnuda os montes. É suave,
protetora: um aconchegante casulo.
A neblina dá forma e substância a um questionamento, um choque, uma dúvida, um chamado à clarividência.
Ela cria assim uma paisagem tanto mental quanto física: um espaço de projeção onde imaginação e realidade
se confundem.
Ao isolar demais, ocultar, sufocar, a neblina pode acabar absorvendo, gerando um medo arcaico, evocando a
passagem para a morte. É a metáfora do sepultamento.
A neblina vela a luz, muda a percepção das coisas, coloca momentaneamente em espera o que deve ser visto
de outra forma, atrasa a interpretação de fenômenos demasiado intensos ou perturbadores.
A neblina suspende o tempo e abre para o tempo longo.
A neblina modifica a matéria do mundo.
Por evidência, escolhi para esta série o preto e branco, ou melhor, o preto que emerge do branco, por
respeito tanto à pureza das luzes vaporosas quanto à profundidade dos pretos que atravessam essas nuvens.